A arte de Fernando Priamo

Quando se observa uma fotografia, hoje em dia, a primeira impressão é a que não fica. Isso porque, cada vez mais, os fotógrafos buscam se esmerar na arte de retratar o seu objetivo com a atenção que o momento merece. E ao buscar essa perfeição, ele deixa de ser apenas a testemunha da imagem, para ser coautor daquela arte. E Fernando Priamo se enquadra nesse perfil — raro, por sinal — do profissional que vislumbra algo mais do que eternizar um flagrante, um momento, uma imagem. Como repórter-fotográfico ou como artista da lente, lá está ele, captando a notícia visual, buscando os meandros do fato nas entrelinhas de cada clique, cúmplice da notícia e da beleza, digitador do acontecimento e da flor, olhos implacáveis em busca do ângulo e do melhor sorriso humano. Dos processos já históricos dos filmes de rolo até o moderno digital, o trabalho de Fernando Priamo ultrapassa o simples enfoque da câmara para sugar da cena sua maravilhosa magia, sua suprema tragédia, sua fulgurante beleza, sua fugaz eternidade, seu contorno de luz. Os gestos do ser humano enquadram-se na sensibilidade do fotógrafo, assim como a silhueta de uma montanha ou o desenho geométrico de uma janela, através do qual retumba a perenidade da alegria de viver ou da insensatez de tristes realidades. Mas tudo está lá. Cravado como a imagem que fixa em nossa mente como algo a ser consumido com avidez pelo olhar de quem vê poesia em quase tudo. Nas rimas das cores, nos versos do preto e branco, na concretude do foco, na atmosfera estonteante da profundidade, no embriagador sentido da euforia da vida, na excitação do gesto delimitador do cotidiano e da História, eis algumas dessas qualidades que a sensibilidade, o amor e a paixão que Fernando Priamo tem pelo seu trabalho, nesses tempos tristes em que o Homem está sendo deseducado para não enxergar o belo, está sendo desviado para a pura e simples necessidade de sobreviver. E isso é muito pouco. Isso é nada. Assim, as imagens e a arte de Fernando Priamo merecem muito mais do que uma primeira impressão. Merecem estar preservadas em livros, quadros e, principalmente, na consciência e na sensibilidade daqueles que acreditam que a alma de cada um de nós está refletida na natureza e nas pessoas estampadas nas imagens de uma fotografia. Humana fotografia. Como a de Fernando Priamo.
Renato Dias
Jornalista
